(Formação e história)
Os calendários litúrgicos basicamente procuram guiar os fiéis na prática da vida espiritual da Igreja através do ano em vigor. O calendário da igreja especifica os dias para a comemoração dos eventos na história da salvação da humanidade determinando a preeminência dos eventos associados com Nosso Senhor Jesus Cristo; os dias comemorativos destes eventos são chamados de Festas Senhoriais - híde moronoie - e incluem os domingos, e as festas do Senhor que comemoram seu nascimento, circuncisão, batismo, entrada no Templo, transfiguração, crucifixão, ressurreição e ascensão, entre outras.
O calendário Siríaco Ortodoxo começa no domingo de Santificação da Igreja - kudox hito - que normalmente cai no último domingo de outubro quando acontece de ser dia 30 ou 31 do mês ou então no primeiro domingo de novembro. O domingo seguinte é o dedicado à Renovação da Igreja - hudoth hito. Os domingos seguintes até o Natal comemoram os principais eventos que precedem a encarnação do Verbo, começando pela anunciação a Zacarias, pai de João Batista, a anunciação à Virgem Maria, nascimento de São João Batista, a visitação de Nossa Senhora a Elisabete ou Isabel sua prima e a revelação de José. Segue-se o domingo que antecede o Natal e finalmente a comemoração do Natal em 25 de dezembro, exceto na Terra Santa, onde a Igreja continua comemorando o Natal a 6 de Janeiro. O advento tem início em 1º. de dezembro, embora o jejum da natividade só seja obrigatório agora a partir de 15 de dezembro.
Depois do Natal, a Igreja comemora o martírio dos inocentes de Belém - katlo d´ialude - que Herodes mandou matar em 27 de dezembro, segue-se a circuncisão de Nosso Senhor Jesus Cristo - gzorto - a 1º. de janeiro.
A Epifânia - denho - quando se comemora o batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo -ma´moditho - no dia seis de janeiro.
A apresentação de Nosso Senhor Jesus Cristo ao templo - mahe´ltho - é comemorada em dois de fevereiro.
As datas das comemorações seguintes são determinadas pela data da festa senhorial mais importante, a Ressurreição - kiomto. A data desta festa é determinada de acordo com o cânon estabelecido no Concílio de Nicéia em 325 AD. De acordo com o sínodo, a Páscoa, ou festa da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo deve ser comemorada no domingo seguinte à lua cheia depois do equinócio de verão, embora, nunca no dia da lua cheia. Como a data foi determinada no calendário lunar, esta data não está determinada nem no calendário Juliano nem no Gregoriano.
A Quaresma ou Jejum maior do Senhor - saumo rabo - antecede a festa da Ressurreição começando numa segunda-feira sete semanas antes da Semana Santa. Convém lembrar que os três dias de jejum de Nínive (capital do império assírio) - saumo d´ninue - começa na segunda feira, três semanas antes do início da Quaresma.
No domingo seguinte ao do jejum de Nínive celebram-se todos os sacerdotes finados - cohne - e já no domingo seguinte celebra-se o dia de finados - h´anide.
No domingo que antecede a segunda feira do início da Quaresma comemora-se a festa das bodas de Cana - kotne - quando Nosso Senhor transforma a água em vinho, marcando o início do ministério público de Jesus Cristo. Nos domingos subseqüentes são lembrados os eventos de cura de Nosso Senhor Jesus Cristo, assim celebra-se a cura do leproso - garbono -no segundo domingo da Quaresma, a cura do paralítico - m-xario, da mulher cananita - kna´noito, no quinto domingo da Quaresma celebra-se o bom samaritano - xomroyo tobo em seguida do cego Bar Timai - d´samio - e no domingo seguinte celebra-se o domingo de ramos - uxa´no, ou seja, a entrada triunfal de Nosso Senhor em Jerusalém.
Na quarta feira depois do quarto domingo da Quaresma, comemora-se a Exaltação da Cruz no Meio da Quaresma - falge d`saumo - neste mesmo dia a Igreja celebra a memória do Rei assírio, Abgar de Edessa que ainda com Nosso Senhor em vida creu nele.
É importante lembrar que no dia 25 de março a Igreja comemora também a anunciação de Nossa Senhora, isto é nove meses antes do Natal. Esta data é tida como altamente significativa no calendário litúrgico pois, mesmo ocorrendo numa Sexta feira Santa deverá o sacerdote celebrar a Santa Liturgia.
O quadragésimo dia da Quaresma cai na sexta feira anterior à Semana Santa, e, a ressurreição de Lázaro é comemorada no sábado seguinte, antes do Domingo de Ramos.
Observe-se que durante a Quaresma, de forma educacional, a Igreja lembra não só as curas mas a caridade e o amor ao próximo com o bom samaritano e finalmente prova o poder de Cristo, Nosso Senhor, sobre a morte com a ressurreição de Lázaro.
A Semana Santa no calendário litúrgico Siríaco Ortodoxo tem início no cerimonial que celebra a entrada no paraíso com a parábola da dez virgens na noite de vigília - nahire - (luzeiros), ou seja, na noite do Domingo de Ramos.
Normalmente a quarta feira que antecede a Quinta feira Santa é reservada às confissões dos fiéis que se preparam para receber a Sagrada Comunhão no dia seguinte.
A Quinta feira Santa também chamada de Quinta feira dos Mistérios ou elementos - hamxo d´roze - comemora-se preferencialmente pela manhã a Instituição da Santa Eucaristia, pois os fiéis normalmente jejunos e já confessos vêm à Igreja para comungar. Ao entardecer ou à noite da Quinta feira Santa celebra-se a cerimônia do Lava-pés.
No dia seguinte isto é na Sexta feira Santa ou Sexta feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo hrubto d´haxo ou hrubto rabtho dazkifutho - celebra-se inicialmente a cerimônia de crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo, em seguida celebra-se o seu enterro embaixo do altar mor da Igreja local.
O sábado que segue esta Sexta feira da Paixão é chamado de Sábado das Boas Novas, pois, é quando Nosso Senhor Jesus Cristo desce para a morada dos mortos - xiul - para anunciar as boas novas àqueles que morreram na esperança da vida eterna e na sua vinda.
Finalmente o Domingo de Páscoa ou Domingo da Ressurreição Salvadora -Had bxabo dakiomto forukoito - é celebrado com grande pompa e circunstancia pela Igreja.
O domingo seguinte ao de Páscoa é chamado de Domingo Novo ou o Domingo Posterior à Ressurreição - Had bxado hatho ou Had bxado dbothar kiomto - seguem-se então os demais domingos enumerados após a Ressurreição até o sexto domingo.
A Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo ao céu - suloque d´moran laxmaio - é comemorada na sexta Quinta feira depois da Ressurreição.
O Pentecoste - fantikusti - cai no domingo, dez dias depois da festa da Ascensão.
Cumpre ainda citar as demais festas de significativa importância no Calendário Litúrgico da Igreja Siríaca Ortodoxa de Antioquia e que são:
A comemoração dos santos Pedro e Paulo no dia 29 de junho que são atualmente antecedidos por três dias de jejum e que na antiguidade era antecedido por treze dias de jejum. A Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo - mtale - comemorada no dia 6 de agosto; a festa da Assunção de Nossa Senhora - xunoio dioldath aloho - no dia 15 de Agosto precedida por cinco dias de jejum e finalmente a Festa do Encontro da Cruz - h´ido daslibo - celebrado no dia 14 de setembro comemorando o encontro da Santa Cruz por Helena a mãe do imperador Constantino.
No passado o Calendário Litúrgico da Igreja Siríaca Ortodoxa era baseado exclusivamente no calendário Juliano. Apesar de o Patriarca Siríaco Ortodoxo Mor Ignatius Nimatalah (1587) ter participado como membro observador na comissão da reforma do calendário cristão promovida pelo papa Gregório XIII, o calendário Gregoriano não foi adotado na Igreja Siríaca Ortodoxa até o século XX. A partir de 1955 as festas fixas passaram a ser comemoradas de acordo com o chamado calendário ocidental ou Gregoriano com exceção da comemoração do Natal que nas igrejas siríacas na Terra Santa continuaram celebrando esta data no dia seis de janeiro. Por outro lado o calendário Juliano continua determinando a data de celebração da Páscoa e conseqüentemente as festas e celebrações a ela vinculadas.
A Igreja Siríaca Ortodoxa tem pelo menos sete datas durante o ano dedicadas à exaltação da Virgem Maria Mãe de Deus, assim no dia 26 de dezembro comemora-se a Glorificação de Nossa Senhora, o dia 15 de janeiro é dedicado à intercessão de Nossa Senhora sobre as sementes e no dia 15 de maio a benção de Nossa Senhora sobre as colheitas. Comemora-se no dia 15 de agosto comemora-se a Assunção de Nossa Senhora, a 8 de setembro seu nascimento e em 25 de março a Anunciação assim como celebra-se também a Anunciação novamente no quinto domingo anterior ao Natal.
Já os demais apóstolos, santos, santas, mártires e santos padres têm dias específicos de celebração através do ano todo, e normalmente sua lembrança acontece no dia da sua partida deste mundo, praticamente em todos os casos estas datas seguem o calendário Gregoriano com exceção da comemoração de Santo Efrem o Siríaco que é celebrado no primeiro sábado da Quaresma.
Nos primórdios do Cristianismo quando não existia ainda Calendário Litúrgico oficial e impresso cada igreja buscava ter seu calendário de comemoração dos santos, pois as chefias das cátedras se preocupavam tão só com as festas senhoriais ou maiores. Os diversos manuscritos comprovam esta situação, mas com o passar do tempo muitos nomes de santos dos primórdios do Cristianismo ou mesmo de santos regionais caíram no esquecimento e outros novos surgiram. O Calendário Litúrgico mais completo da Igreja Siríaca Ortodoxa de Antioquia data do início do século XIV e foi encontrado em Hah na moderna Turquia na região de Tur Abdin e sua compilação é atribuída a um certo Raban Sleebo (Frei Cruz).
É preciso saber que a palavra calendário é originária do latim - calendarium - significando "interesse em registrar" ou "livro de contabilizar"; pois a derivação - calendae ou kalendae - refere-se ao primeiro dia do mês romano, o dia em que se anunciavam os futuros dias de feira, festas e outras ocasiões.
No entanto o calendário é um registro de divisão dos tempos presente em todos os grandes processos civilizatórios, assim eles aparecem no antigo Oriente Médio mais especificamente entre os povos sumero-babilonios Na Mesopotâmia onde eles eram divididos em meses lunares e anos solares por volta do terceiro milênio antes de Cristo. Os estudos arqueológicos e decifração dos cuneiformes comprovam que desde o século XXVII antes de Cristo existiam calendários detalhados determinantes do controle do tempo e regular de forma harmônica a vida do indivíduo inserido no contexto social.
Basicamente neste primeiro conceito de calendário sumério apesar de existir o conceito de meses lunares, o ano solar era dividido em apenas duas estações - verão e inverno - e o que determinava esta divisão era a colheita da cevada que normalmente ocorria na segunda quinzena de maio e a primeira de junho o que corresponderia grotescamente ao início do inverno ou o que corresponde hoje ao nosso outono.
Já na região da Assíria contavam-se três estações e na Anatólia na região norte avançaram para quatro estações no ano, mas na Mesopotâmia ao menos até 1800 AC persistia o sistema de duas grandes estações no ano solar comprovado este fato pela profecia de bem estar que duraria seis meses da cidade de Mari no meio do Eufrates.
No século VIII antes de Cristo os astrônomos da corte assíria reportavam-se aos reis, isto é no que tange à sucessão citando os meses lunares.
Até a queda do império assírio em 612 AC ainda o povo e a corte se referia ao início do ano pela colheita - limmu ou lamlem - (juntar ou colher) esta segunda forma em siríaco moderno. O nosso povo assírio ainda conta os anos de sua existência a partir da fundação da cidade de Nínive e hoje segundo esta contagem estamos no ano 6753, isto é lógico só por razões históricas uma vez que atualmente seguimos o calendário cristão como cristãos que somos.
Com o correr do tempo e o advento da moeda como valor de troca passou-se a dividir melhor o tempo principalmente na tentativa de respeitar os acordos entre homens, sociedades, governo, etc... e os nomes dos meses que conhecemos no oriente são oriundos ainda dos nomes ditados pelos antigos povos assírio-babilõnios.
Por volta de 1800 antes de Cristo já se determinavam os meses com 29 ou 30 dias cada, mas o ano lunar somava 354 dias e tornava-se necessário ajustá-lo para o ano solar de 365 dias. Isto foi feito com a intercalação de um mês, este mês intercalado aparecia com o nome de - iti digi - a intercalação acontecia aleatoriamente e desta forma cada cidade intercalava como lhe interessava quer por razões reais ou imaginárias. Mais tarde por volta de 541 antes de Cristo por decreto real e devido ao avanço nas observações astronômicas uniformizou-se a intercalação.
Em 380 antes de Cristo os monarcas do império persa assimilaram totalmente o calendário babilônio e aperfeiçoaram a ponto de computar com perfeita equivalência um período luni-solar de 19 anos 235 meses com intercalações nos anos 3, 6, 8, 11, 14, 17 e 19. Apesar de os sumério-babilonios e assírios respeitarem o início do ano no dia primeiro do mês - Nisanu - esta data variava em torno do equinócio da primavera dentro do período de 27 dias, correspondendo à figura do ciclo Pascal atual de 35 dias.
Os nomes dos meses babilônios eram: NISANU, AYARU, SIMANU, DU´UZU, ABU, ULULU, TASHRITU, ARAKHSAMNA, KISLIMU, TEBETU, SHABTU, ADARU. O mês ADARU II foi intercalado seis vezes num período cíclico de 19 anos, mas nunca no décimo sétimo ano do ciclo quando ULULU era inserido.Desta forma o calendário babilônio até o fim preservou sua bipartite original nas duas estações do ano. Os meses permaneceram verdadeiramente lunares e iniciavam-se quando a Lua Nova se tornava visível no entardecer. O dia - iaumo - iniciava no entardecer. Os períodos: noite - lilio - e dia - imomo - eram divididos em três tempos e cada qual tinha duração de 12 horas, ou seja, cada tempo contava 4 horas. Relógios de sol e de água serviam para contar as horas.
Comprovadamente esta forma de calendário influiu decisivamente em todos os povos do oriente e os judeus adotaram este calendário quando do cativeiro de setenta anos na Babilônio, isto é de 586 a 516 antes de Cristo.
Quanto aos persas, estes, adotaram todo o calendário babilônio difundindo-o em todo o império persa como comprovam os documentos em aramaico encontrados do rio Indo até o Nilo. Os seleucidas e posteriormente os partos mantiveram este sistema e só no século I antes de Cristo é que se encontra no norte do atual Iran o uso de meses e Calendário Zoroastro. No entanto a origem do calendário Zoroastro de 12 meses e 30 dias mais cinco dias permanece desconhecido. O calendário Zoroastro tornou-se de uso oficial sob a dinastia sassanida desde 226 AD até a conquista árabe em 621 AD.
Poderíamos discorrer ainda sobre os calendários egípcio, gregos, hindus, chineses, islâmicos, ameríndios como os astecas, maias, incas, mas perderíamos o fio da meada no que nos interessa que é o calendário cristão.
O calendário atende essencialmente os anseios de controle do tempo do homem uma vez que se considerarmos o tempo intergaláctico perde-se a noção de relação e objetividade; só a título de exemplo a distancia da nossa Terra até a Galáxia Andrômeda de 14.000.000 trilhões de milhas, os fótons que vemos hoje deixaram aquela galáxia há precisamente 2,4 milhões de anos, ou seja, antes de existir vida no nosso planeta.
Mais uma vez a divisão do tempo de um segundo para Deus é como mil anos para nós prevalece.
De qualquer forma o homem aprendeu a dividir o tempo através da observação dos corpos celestes.
O que nos interessa é o vinculo do calendário judaico formado a partir do babilônio, pois, aquele também vincula o início do ano ao aparecer da espiga da cevada quando acontece a páscoa judaica. O calendário judaico também fica nos 354 dias e na Bíblia em nenhuma passagem fala-se de intercalação para os 365 dias. Depois da destruição do templo em 70 AD os rabinos e líderes a partir dos padres passaram a fixar o seu calendário religioso. Em verdade por volta de 200 AD a observação astronômica visual da lua nova foi suplantada por instrumentos e cálculos astronômicos secretos e desta forma os siríacos de Antioquia conseguiram precisar o calculo do calendário luno-solar entre 328-342, fixando a celebração da páscoa judaica no mês de março (Juliano), o mês do equinócio de primavera, sem observar as regras e leis palestinas.
Controvérsias à parte, vamos ao calendário Juliano calculado a pedido de Júlio César, imperador romano que no século I AC convidou o astrônomo alexandrino Sosigenes para aconselhá-lo sobre uma forma de calendário e este sugeriu que a única forma de abandonar o sistema lunar era basear o calendário nas estações do ano e adotando um ano solar tropical próximo ao calendário egípcio, só que com 365 e ¼ dias ou 365,25 dias contra os 365 dias do calendário egípcio.
Discussões à parte, Julio César determinou a utilização do calendário de 365,25 dias e para resolver o problema da fração para a plebe, introduziu a cada quatro anos um dia a mais no mês de fevereiro. Como fevereiro tinha 28 dias e o dia introduzido entre 23 e 24 de fevereiro era o sexto dia antes de março, o dia passou a chamar-se - sexto-kalendae - o dia intercalado quando aparecia, vinha como dia seguinte, e por isso foi chamado de - bis-sexto-kalendae. Este termo determinou a desinência de ano bissexto.
Mesmo com este sistema, persistiram alguns erros de contagem que só foram corrigidos em 8 AD no tempo de Augusto César. Persistiram neste calendário o uso dos nomes do calendário da república romana.
O calendário romano não tinha determinação de semanas, só tinha os chamados - dies fasti e dies nefasti - ou sejam os dias de trabalho em que as cortes atendiam ou não, ainda existiam os - dies comitiales e dies festi ou ainda dies feriae - ou sejam os dias de assembléias públicas, dias de festivais e dias santos. Este sistema persiste até o tempo de Constantino I que no século IV depois de Cristo interrompeu este arranjo.
O calendário Juliano de 365,25 dias era muito longo para a correção do ano solar tropical de 365,242199 dias. O erro de 11 minutos e 14 segundos por ano acumulava praticamente um dia e meio em dois séculos e algo como sete dias em mil anos. Conseqüentemente o calendário começa a ficar fora de fase com relação às estações do ano. Periodicamente este problema era apresentado nos concílios das igrejas cristãs e discutido com os astrônomos até que no ano de 1545 a verdadeira data da Páscoa foi alterada em dez dias, quando o Papa Paulo III da Igreja Católica Romana alterou por édito de Trento a correção do erro no ocidente. Na verdade a discussão sobre esta correção durou até 1572 quando Gregório XIII foi eleito papa e este por sua vez deparou-se com diversas propostas para o acerto do calendário no ocidente. O jesuíta Christofer Clavius (1537-1612) aceitando as sugestões do astrônomo Luigi Lilio morto em 1576 permitiram ao papa condições de emitir a bula de correção. A bula editada em fevereiro de 1582 trouxe inicialmente o equinócio de verão de volta para o dia 21 de março, a festa seguinte de São Francisco que seria em 5 de outubro foi transferida para 15 de outubro omitindo desta forma no calendário de ajuste dez dias. Ainda para aproximar ao máximo da verdadeira duração do ano tropical foi acertado que o ano terá 365,2422 dias diferindo do calendário Juliano em 0,78 dia por século ou 3,12 dias a cada 400 anos. Desta forma foi ainda promulgado que três de cada quatro anos centenais deveriam ser anos comuns e não bissextos e isto levava à conclusão de que a regra para que os anos centenais fossem bissextos é que deveriam ser divisíveis por quatro, assim 1700, 1800 e 1900 não seriam bissextos no calendário gregoriano como seriam no calendário Juliano. Esta bula determinou também a sistemática de cálculo da data da Páscoa no ocidente.
Quanto à data de comemoração da Páscoa, como esta data era e é a mais importante da Igreja Cristã, sua fixação determinava todas as demais celebrações das festas moveis cristãs.
A ressurreição dependia intrinsecamente da data de Crucificação de Nosso Senhor Jesus Cristo que segundo o Novo Testamento ocorreu três dias antes da páscoa judaica. A páscoa judaica era celebrada no décimo quarto dia do mês lunar Nisan, o primeiro mês do ano na religião judaica, isto é no mês lunar o décimo quarto dia que cai no equinócio de verão ou logo depois dele. As Igrejas Cristãs do leste mediterrâneo celebravam, portanto a sua Páscoa ou festa da Ressurreição em 14 de Nisan independente do dia da semana em que caía, mas o resto da cristandade passou a celebrá-la somente no domingo da semana de Páscoa.
Para determinar corretamente a data da comemoração
da Ressurreição e conseqüentemente da Páscoa e fixar
concomitantemente as festas móveis da Igreja, tornou-se difícil
uma vez que os evangelhos não fazem referencias exatas, pois Mateus,
Marcos e Lucas diferem de João. Esta controvérsia tornou-se exacerbada
quando consultadas fontes judaicas uma vez que os judeus só reconheciam
o inicio do dia ao por do sol. Calcular o 14º. dia do mês lunar Nisan
e alguns passaram a defender o 14º. dia outros o 15º. até que
a questão foi finalmente discutida objetivamente no Concílio de
Nicéia em 325 em favor dos quintadecimos e todas as Igrejas concordaram
inclusive com o fato de, se houver coincidência entre as datas judaica
e cristã, os cristãos deveriam comemorar a Festa da Ressurreição
sete dias depois para não coincidir com a páscoa judaica. Desta
forma o Concílio de Nicéia determinou que a celebração
sempre deveria ocorrer no domingo seguinte á lua cheia que caia no equinócio
de verão ou após ele e que seria o dia 21 de março.
Aniss Ibrahim Sowmy